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Ronaldo Paschoa

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ronaldo_paschoa1Na década de 60, atingido pelas explosões da Beatlemania no mundo e da Jovem Guarda de Roberto Carlos no Brasil, um dia peguei algumas latas largadas no quintal de minha casa, montei uma pequena “bateria”, e assim, acompanhando as músicas do radio, comecei a tocar.

Logo depois me encantei com o violão, aprendi alguns acordes, e em pouco tempo tive o primeiro conjunto Os Maphaus que animava festas e bailinhos.

Com vontade de levar a sério à idéia de seguir carreira, decidi entrar para o Conservatório Paes de Barros, perto de onde eu morava no bairro da Mooca em São Paulo, a fim de estudar música popular e erudita.

Depois de adquirir um bom conhecimento de harmonia, fui lecionar violão popular numa escola que se tornou a Faculdade Paulista de Música no Tatuapé. Aproveitei o embalo para fazer também o exame na Ordem dos Músicos e tirar a carteira definitiva.

Em seguida, começaram a surgir muitas oportunidades de colocar em prática as aulas do conservatório como, por exemplo, nos programas do Barros de Alencar e do Bolinha acompanhando calouros. Era um bom desafio, pois eu tinha que tocar ao vivo músicas que não conhecia, e muitas vezes sem ensaio.

Outro exercício importante foi o de tocar no conjunto de bailes e na orquestra do “italianíssimo” maestro Záccaro. Anos depois, seu primo Mario Záccaro compôs a trilha sonora do filme “Asa Branca, Um Sonho Brasileiro”, premiado no festival de cinema de Gramado (em 1981), com Edson Celulari, Eva Wilma, Walmor Chagas e outros, onde gravei três instrumentais, sendo um de minha autoria.

Com vinte anos de idade fui trabalhar com o compositor e cantor Tom Zé, que mais recentemente obteve o efetivo reconhecimento de seu valor. Por intermédio dele, conheci Odair Cabeça de Poeta e ele me convidou para entrar no Grupo Capote. Foi com eles a primeira vez que gravei um disco. Era um compacto com duas parcerias de Odair e Tom, e no estudio, tremi na base com a presença do veterano e respeitado guitarrista Heraldo Dumont. Ele gravou junto comigo, e no final minha guitarra acústica tomou um tombo e quebrou.

Com o Capote tive o prazer de tocar no primeiro festival tipo Woodstock no Brasil, numa fazenda na cidade de Iacanga, perto de Bauru, ao lado das mais famosas bandas brasileiras de rock da época como : Mutantes, Terço, Moto Perpetuo e outras.

Mas o que realmente me fascinava era pertencer a uma banda que tocasse as próprias músicas, e junto com meu irmão (baixista) e mais três amigos, formamos o grupo Fragata com o forte ideal de fazer sucesso.

Dedicávamos todo o tempo para criar, ensaiar e planejar. Pedro Adão e Durval Pancera compunham as músicas; depois todos davam idéias até completar os arranjos. Tudo, desde a escolha do nome, tinha um significado para nós, e esperávamos transmitir isso ao público. Fragata era a “barca” que nos conduzia na batalha pela vida, simbolizada pelo desenho de uma caravela pirata e cantada na música “Vida Pirata” que sempre encerrava os shows. A roupa de “Peter Pan” que vestimos em muitas apresentações, aproveitando o significado do desenho de Walt Disney, queria defender a inocente idéia de nunca envelhecer.

Passamos um bom tempo fazendo shows e tentando gravar. Apesar de não atingir a meta do disco, o Fragata, entre outras coisas, produzia um rock bem humorado, e nesse clima, brincando de compor em tom de sátira, com ajuda de Pedro, fiz uma versão da música “Day Tripper” dos Beatles, falando de abandonar a sociedade civilizada e viver numa tribo de índios. O título ficou sendo “Na Tribo”. Essa coisa do bom humor era uma tendência, e foi comprovada logo após com o lançamento de bandas como : Blitz, Ultraje a Rigor e outras.

Nesse período fui convidado para entrar no Tutti Frutti, liderado por Luis Carlini, guitarrista e compositor ex-parceiro de Rita Lee, e logo matei a vontade de gravar, fazendo em seguida dois discos pela RCA. O primeiro foi com a cantora Tibet, que tinha um programa de astrologia na T.V. Nesse disco, alem de gravar guitarras e violões, assinei também como arranjador vocal, e uma das vozes femininas era da grande cantora Silvinha Araujo. O outro disco, do Tutti, levou o título de “você sabe qual o melhor remédio”. O Tutti Frutti era uma das poucas bandas de rock brasileiro naquela época.

A melhor fase para mim foi quando tocávamos na “Paulicéia Desvairada”, uma casa noturna com a direção artística de Nelson Motta. Ele nos pediu que coloríssemos a banda com instrumentos de sopro tipo: sax, trombone e trompete, hoje muito usados; e novamente tive oportunidade de aplicar o que havia estudado, pois eu escrevia os arranjos para o pessoal soprar.

Algumas discórdias com o pessoal do Tutti Frutti me levaram a aceitar a proposta de montar o musical Beatles Forever, que resgatava toda a loucura da Beatlemania. Estreou no teatro Procópio Ferreira e meu papel era de John Lennon com: perucas, terninhos, fardas e todas as guitarras iguais às do beatle.

Foram mais de quatrocentas horas no Mosh Studio para preparar os playbacks. O trombonista Wladimir que eu conhecia do Tutti, trouxe a moçada da Sinfônica Jovem Municipal para gravar as orquestrações, e desta vez o prazer de escrever as partituras foi tanto que resolvi guardá-las como recordação. Nas gravações, fiz até solos de piano elétrico que foram participações de Billy Preston em músicas dos Beatles. Tivemos que usar o truque de atrasar a rotação da máquina para que eu conseguisse tocar, mas o resultado foi muito bom.

O Beatles Forever seguiu carreira sem mim. Cansado de tentar imitar a voz de John Lennon, eu sentia vontade de fazer cover também de outras bandas, e tive oportunidade para isso ao entrar no Rock Memory, que gravou pela Continental três discos com sucessos do rock desde os anos 60, e ainda um de composições da banda com o título de “Sozinho na Cidade”. Neste eu gravei solos e trechos que gostei muito, especialmente na música que deu o nome ao disco.

Nesse período fiz alguns shows com o grupo Magazine de Kid Vinil, e com o talentoso Kiko Zambianchi, na ocasião em que ele compôs a música “Primeiros Erros”, que é talvez seu merecido maior sucesso.

Depois de quase quatro anos de Rock Memory, fui convidado para tocar com Guilherme Arantes e aceitei com muita honra, pois sempre valorizei muito seu trabalho. Com ele viajei por todo o Brasil, fazendo shows nos melhores teatros e ginásios, com casa lotada na maioria das vezes.

Foi muito valiosa para mim a experiência que adquiri com Guilherme. Ele sempre me incentivou. Participei de cinco dos seus CDs, incluindo um duplo gravado ao vivo. Eu costumava receber uma fita cassete com suas composições ainda alinhavadas, e ficava livre para criar o que quisesse. Depois gravávamos uma fita demo no estudio em sua casa e ele então decidia o que colocar definitivamente no CD. Foi muito gratificante para mim, o momento em que gravei o solo de violão na música “Alguém” do CD “Castelos”. Guilherme, emocionado, me abraçou e estava com lágrimas nos olhos.

Durante o tempo em que toquei com Guilherme Arantes, para aproveitar os dias em que não tínhamos shows, pertenci a uma banda de característica “pesada” e o nome debochado de A.A. Mais Uma Dose. Dois dos integrantes (Simbas e Marinho) já haviam tocado comigo no Tutti Frutti ; o outro era o baixista argentino Willy Verdaguer que trazia uma grande bagagem de conhecimento musical.

Tínhamos um ótimo entrosamento e Willy resolveu nos convidar para participar do seu trabalho de rock progressivo. Nós aceitamos meio amedrontados, pois esse tipo de música requer muita dedicação e atenção para tocar; um vacilo qualquer pode fazer a gente se perder, especialmente na música de Willy que é muito rica no aspecto rítmico.

Nos apresentávamos com o nome de Willy Verdaguer e Banda, e a formação era sempre: contrabaixo, guitarra, sax revezado com flauta, e bateria; mas os músicos variavam. Numa seqüência de shows iniciada com o lançamento do CD “Humahuaca”, tivemos o Derico como integrante, e com sua indicação, tocamos na canja do programa do Jô.

A guitarra desempenha um papel importante no trabalho de Willy, e ele gostava que eu usasse efeitos expressivos como: Delay, Whammy e outros. Nessa época, novamente surgiram oportunidades de gravar, como no disco em que Luis Ricardo do SBT tentava se lançar como cantor, e mais tarde com o grupo Polegar , na música de trabalho “Quero mais”, onde fiz um solo usando a técnica que os guitarristas chamam de “two hands”.

Num intervalo entre as temporadas de shows do Guilherme, anunciado por ele, fui tocar com Fábio Jr, fazendo cerca de vinte e cinco shows em seis meses.

De repente, e sem estar pensando nisso, fui convocado outra vez a fazer cover. O convite era para gravar um chamado “Song Book” do Queen com o produtor Jorge Gambier para a gravadora Movieplay da Holanda.

Tocar cover é sempre um grande desafio, e deixar gravado então, pode ser cruel. É praticamente impossível obter o mesmo resultado dos originais, produzidos pelos mais talentosos artistas do mundo, e em condições muito mais favoráveis em termos de tempo e infra-estrutura. Para copiar as guitarras tocadas por Brian May tive que suar a camisa gravando quarenta canais. Recentemente participei de outros dois CDs com sucessos do grupo Abba.

Na minha carreira de músico, até hoje recebi muitos convites para tocar. Um deles, bastante especial, foi o de Rita Lee. Ela estava montando o show “A Marca da Zorra”, e fizemos uma pré-apresentação simplesmente no palco do “Voodoo Lounge”, primeiro show dos Rolling Stones no Brasil. O super saxofonista Leo Gandelmam que eu conhecia da época do Guilherme também participou. Depois de alguns meses de tournée, já bem firmes, gravamos um CD durante a temporada do Canecão no Rio de Janeiro. Rita cantava vários sucessos de sua carreira, e Roberto de Carvalho deixava para mim alguns solos de guitarra.

Um show em grande estilo foi o do Premio Sharp, que naquele ano homenageava Fernanda Montenegro e Rita Lee com os respectivos prêmios de “atriz e cantora do ano”. Realizou-se no Teatro Municipal do Rio, com a platéia repleta de artistas. Antes da apresentação com Rita e Roberto, a banda acompanhou interpretações de Fernanda Abreu, Ney Matogrosso e Zélia Duncan que cantou “Lá vou eu”, onde fiz um solo. Esse show do Premio Sharp aconteceu quase um ano depois do fim da tournée que estávamos fazendo.

“A Marca da Zorra” durou cerca de dois anos, e então, Rita e Roberto resolveram parar sem que tivéssemos previsão de quando voltaríamos a fazer shows. Isso novamente me abriu espaço para tocar em outro grupo. Assim, junto com Renato, Brasa e Simbas montamos a banda Dr Fritz com a proposta de misturar no repertório músicas brasileiras e internacionais, sem a obrigação de copiar sempre os arranjos originais. Sabendo que a aceitação do público para o cover “fiel” é indiscutível, achamos também interessante nos permitirmos tocar um pouco à nossa maneira, ficando livres até para improvisar em momentos oportunos.

Convidado para entrar no Rockover no final de 96, passei a atuar nas duas bandas, reencontrando João kurk e Eduardo Leão, ex-integrantes do Rock Memory junto comigo; além do Beto Scardoa com quem eu não havia tocado ainda, embora já nos conhecêssemos da mesma época.

Através do contato feito pelo Leão com a gravadora Laser Records, tivemos a oportunidade de gravar um CD ao vivo no Café Piu Piu, onde a banda sempre foi recebida com a casa lotada. Egidio Conde levou seu estudio móvel até a entrada do bar, e em duas noites conseguimos um total de cinquenta e quatro músicas. A intenção era de lançarmos “Rockover Hits Vol.1, Vol. 2 e Vol. 3″; no entanto, por dificuldades encontradas pela gravadora, isso não foi possível, e o material que seria usado para o segundo e terceiro volumes ficou guardado com Egidio.

Eu gostei muito do resultado do CD, principalmente pelo fato de ter a constante e quente participação do público. O clima ficou bem natural, registrando um desses momentos em que a banda e a platéia se completam para curtir os sucessos do rock.

Com a dissolução do Dr Fritz no final de 2001, senti a necessidade de buscar outra atividade além de tocar no Rockover. Assim, mais tarde aceitei o convite do diretor da Onerr para trabalhar com ele desempenhando o papel de especilista de produto. A Onerr fabrica pedais de efeitos para guitarra e foi a primeira empresa brasileira dessa área a exportar para a Europa e Estados Unidos.

A feliz constatação de estar vivendo uma época em que o músico brasileiro pode usar profissionalmente equipamentos produzidos no Brasil, sem perder, e às vezes até ganhando qualidade em relação a importados já consagrados há muitos anos, me proporcionou uma sensação de confiança que eu nunca havia sentido antes. Por isso decidi espontaneamente substituir os pedais da minha pedaleira pelos da Onerr. Outros itens de meu equipamento como o amplificador e as cordas da guitarra também foram substituídos por nacionais.

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